
A Balaclava Records anunciou nesta semana um show no Brasil da banda inglesa Chapterhouse, para o dia 29 de setembro agora em 2026. Vai acontecer no Cine Joia, na Liberdade.
Todos os usos da palavra “histórico” cabem para qualificar essa vinda do reformado grupo da cidade de Reading, na Inglaterra, famosa por duas coisas em particular: terra de um dos mais violentos hooligans de futebol do país e do tradicionalíssimo Reading Festival, um dos mais importantes eventos de música do mundo.
Primeiro que a banda britânica não se reúne para show desde 2010, há 16 anos, quando à época tinha se juntado pela primeira vez depois do fim oficial, fez dois shows em Londres e uns poucos nos EUA e voltou a sumir. Nesta ocasião, eles não pisavam num palco desde 1995.
Depois, esse concerto de setembro do Cine Joia é para celebrar os 35 anos do importantíssimo “Whirlpool”, o disco de estreia do Chapterhouse, lançado em abril de 1991 e considerado bíblia do shoegaze-indie-dream pop etc.
O contexto para explicar a importância do Chapterhouse na cena inglesa é… importante.
O grupo que sobe no palco do Cine Joia em setembro, obviamente trazido pela Balaclava, surgiu em Reading no finalzinho dos anos 80 e foi sendo lapidada no começo dos anos 90.
O ambiente da cena inglesa na época era a seguinte: Manchester bombava com o indie-dance de Stone Roses e Happy Mondays, a Escócia entregava barulho e psicodelia com Jesus & Mary Chain e Primal Scream, os americanos preparavam o desembarque com Nirvana, Mudhoney e Pixies, Londres e região tinham uma galerinha barulhentíssima e cabeluda capitaneada por Ned’s Atomic Dustbin e Carter the Unstoppable Sex Machine varrendo os clubes disponíveis e ainda um proto-britpop já estava em formação com Blur e Radiohead, esperando o Oasis chegar poucos anos depois.
Por baixo desse fuzuê maravilhoso, em uma outra ponta dessa cadeia musical, uma garotada formada pelos grupos Ride, Slowdive (também de Reading) e Chapterhouse burilavam forte o shoegaze, inspirados na viagem barulhenta e esquisita de Cocteau Twins, de My Bloody Valentine e até dos próprios Jesus & Mary Chain. Num olhar mais apurado, eles sim eram os “indies” da época.
No famooooooso Reading Festival de 1991 (abaixo), por exemplo, no primeiro dia do evento e já com a turma grunge invadindo UK trazidos pelas mãos pelo padrinho Sonic Youth, o Chapterhouse foi escalado em cima do Nirvana. Um pouco porque a banda inglesa tocaria em sua cidade. E também porque, enquanto o “Nevermind” ainda não tinha sido lançado, o “Whirlpoop” fazia um certo sucessinho na galera nova da ilha.

Um mês depois deste Reading Festival, a música virou de ponta-cabeça e praticamente foi resetada. Entre mortos e feridos, o Chapterhouse continuou sendo uma banda de um tamanho respeitável, até seu segundo e último disco, o “Blood Music”, de 1993, que pode não ter agradado tanto os shoegaze true, mas trouxe a banda para perto de algo mais psicodélico e indie-dance.
Voltando para 2026, esse show que o quarteto vai fazer em São Paulo mais para o final do ano é relativamente um dos poucos que a banda anunciou, para essa comemoração em torno da volta deles e dos 35 anos do “Whirlpool”.
Além do Brasil, a turnê sul-americana de cinco shows tem ainda datas na Costa Rica, Peru e Argentina (duas). No reino deles, o Reino Unido, de oficial tem apenas seis shows marcados (mais um em Dublin), em abril.
Tudo a ver, e fazendo lindamente a ponte dos 90 para hoje, a banda de abertura da noite no Cine Joia vai ser a curitibana Terraplana.
E, assim, o ciclo shoegaze vai se completar.

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* Os ingressos estão à venda online aqui, nos setores Pista e Camarote. Sem taxa de conveniência, dá para comprar tickets no Takkø Café, ponto de venda físico oficial, no Centro.