É uma piada falar do melhor disco do ano em janeiro e fevereiro, mas e em março? Piada ou realidade, a volta da Japanese Breakfast merece todos os superlativos possíveis, um retorno ao folk, ao sensível, capaz de acompanhar a gente por meses e meses. Vem com a gente entender isso.

“For Melancholy Brunettes (& Sad Women)” é, no mínimo, um forte concorrente a melhor título de um álbum em 2025. Quarto trabalho de Michelle Zauner e seu primeiro após a boa repercussão do disco anterior e do seu livro “Aos Prantos no Mercado”, sucesso até no Brasil, onde foi publicado pela editora Fósforo. Em suas próprias palavras, ela chegou perto do sol – perto demais, talvez. Por isso, em “For Melancholy Brunettes (& Sad Women)” optou por não seguir a pegada alegre e pop de “Jubilee”, uma espécie de resposta ao luto impresso em seu livro. A ideia aqui foi voltar ao violão, ao básico. Zauner conta que passou um bom tempo lendo de mitos gregos a romances góticos e também se embrenhou em obras misóginas, tema abordado com fina ironia em “Mega Circuit”. Outro tópico do álbum é o relacionamento dela com o pai, desmanchado após a morte de sua mãe. A ruptura “Little Girl”, tratada do ponto de vista do pai, e a reconciliação “Leda” são músicas praticamente irmãs. Tocado quase todo por Zauner e seu produtor Blake Mills (Fiona Apple, Feist), o disco tem duas participações curiosas que merecem destaque: Matt Chamberlain, dos Smashing Pumpkins, na bateria em duas músicas e o ator Jeff Bridges cantando (e muito bem!) em “Men in Bars”. “I never knew I’d wind up here, to take up arms”, diz um dos versos. Cinco estrelas.
“Equus Asinus” é o primeiro de dois álbuns previstos pelos canadenses do Men I Trust. A banda liderada por Emma Proulx entendeu que o material composto era diverso demais em termos de clima para um disco só. Sendo assim parece que “Equus Asinus” guarda a parte mais suave. “All My Candles” é de um piano cativante, caberia no repertório do Elton John. Entre tantos discos sombrios em 2025, o Men I Trust parece só querer colocar uma luz quente no quarto, evitar telas depois das 19h e manter a higiene do sono em dia. É bom também.
Na bizarra turnê de 1978 dos Sex Pistols pelos Estados Unidos, Sid Vicious esmurrou uma parede de camarim e o buraco no drywall virou um quadro! Esse “vazio” inspirou a nova-iorquina Samia a escrever esta “Hole in a Frame”. Qual a pira dela aqui? É mais fácil se tornar uma ideia do que uma pessoa. Aquele buraco é um fragmento de Sid Vicious que se torna lenda. Para Samia, todo mundo busca esse vazio. É mais fácil administrar a visão distorcida das pessoas sobre você. Mais fácil e até vantajoso. Mas qual o preço de tamanho truque?
Se você viu o trailer do documentário do Pavement e ficou com saudade deles, atenção no Ain’t, verdadeiros herdeiros do espírito de Malkmus e cia. Aqui as guitarras engatam uma segunda linha, fugindo do tema principal da música, sem medo de ser feliz. Os vocais dobrados convidam a gente a cantar junto e a canção gruda na sua cabeça. Perfeito. O Ain’t é uma banda supernovinha, tem três músicas lançadas, mas já merece sua atenção.
“Pirouette” também é o nome do próximo disco de uma das nossas bandas favoritas, a nova-iorquina Model/Actriz. Mantendo a tradição do grupo, é mais uma daquelas canções cheia de momentos – da calma ao caos – e com os instrumentos tocados tão fora do padrão que você desconfia se eles são mesmo um quarteto com vocalista, guitarrista, baixista e baterista. Onde está o carinha que dispara o sampler?
Dias destes escrevemos aqui o quanto gostamos de músicas onde a guitarra já começa apitando. É o que acontece em “Get Dumber”, que como o título antecipa é uma música para zueira, para dar uns gritos e deixar a guitarra só fazendo um barulhinho bom enquanto os vocalistas ficam esgoelando. É o melhor que o punk pode ser. “Who Will Look After the Dogs?”, novo álbum dos canadenses, está previsto para maio. Os outros singles lançados até aqui, “Hallways” e “Paranoid”, são classe A, viu?
A banda indie americana, conhecida também como “a mais viral do Tik Tok”, fez mais uma de suas pequenas joias raras. Comandados pela brilhante Lili Trifilio, o grupo de Chicago aborda aqui a dificuldade em ser direto quanto aos problemas. Melhor é ficar seguro na bolha cor de rosa até que tudo passe (não). “Tunnel Vision”, próximo álbum deles, chega no mês que vêm.
Marina Diamandis, antes conhecida como Marina and the Diamonds, prepara o seu sexto disco de estúdio. Depois de se aventurar ano passado pela poesia, com o livro “Eat the World”, ela volta à música, onde andava sem lançamentos desde 2021. “Cupid’s Girl” é o segundo single desse retorno e não se apega muito à poética, se vale da velha história de levar uma flechada ou dar um flechada do amor, talvez. Mas isso pouco importa, o que pega aqui é a pressão do volume e do peso dos timbres. É para tocar alto em pista.
Lil Nas X tem uma coisa meio Radiohead das ideias que é ficar adiando o lançamento de faixas conhecidas pelos fãs. “Lean on My Body” é dessas. Tem seu lançamento ensaiado desde 2022, teve sua demo postada no Soundcloud em 2024 e agora finalmente ganha sua versão definitiva e oficial. Mais um single do próximo álbum do Lil, “Dreamboy”. É um som ok. Talvez a coisa mais sugestiva seja o duplo sentido possível para a palavra “lean”…
Seguimos de mal com o cancelamento dos DOIS shows do Fontaines pelo Brasil. Só a sessão gravada pelos irlandeses na rádio australiana Tiple J foi capaz de diminuir a dor. Por lá, fizeram um cover de, atenção, “Can You Feel My Heart” do Bring Me The Horizon mixada com “Heart-Shaped Box” do Nirvana, duas pancadas transformadas em uma única baladinha bem suave. Como não vamos ver essa mágica ao vivo? Can you hear the silence?… Esta só no Youtube.
***
* Na vinheta do Top 10, a esperta Michelle Zauner, (d)a (banda) Japanese Breakfast, em foto de Jenn Five.
** Este ranking é pensado e editado por Lúcio Ribeiro e Vinícius Felix.