Top 10 Gringo – Semana boa para revisitar tudo, estrelando as Ibeyi, o Rostam a Blondshell e a Kylie Minogue. Fora a rapa

Revisitar parece ser o verbo das músicas da semana. As Ibeyi revisitaram Cuba, o Rostam revisitou o Vampire Weekend e a Kylie Minogue revisitou a si mesma através de um documentário sobre sua vida. Porém, ninguém foi mais radical que a turma do Car Seat Headrest, que regravou (mais um!!!) disco inteirinho! 

Sintetizadores e percussão fazem mais do que juntar modernidade e tradição em “Aset”, a nova do duo franco-cubano formado pelas irmãs Lisa-Kaindé e Naomi Díaz. É o primeiro single de “Offering”, seu novo álbum. As Ibeyi voltam à Cuba para ambientar seu novo som no cenário onde o capitalismo ocupa símbolos culturais em meio a pobreza causada justamente pelo bloqueio capitalista à ilha, mas é incapaz de matar totalmente a cultura local. Igual Ísis (“Aset”) ao proteger Osíris da morte no mito egípcio, as Ibeyi defendem o legado de sua terra enquanto se apropriam das armas do inimigo (“Eu continuo roubando o conhecimento deles”). Os tambores vão conversar com os sintetizadores, mostrar quem inventou quem e tomar a história de volta.

Em um rock arrastado, Sabrina Teitelbaum aka Blondshell volta aos trabalhos preparando o terreno para o sucessor de “If You Asked for a Picture”, seu belo e talvez um pouco incompreendido segundo álbum. A letra é sobre uma amizade entre mulheres, segundo a própria Sabrina – uma relação que sofre os abalos de uma pressão e do pouco ensinamento quanto aos seus altos e baixos. Mas apesar disso resiste às maiores dificuldades. Ficou bem bonito isso.

Já falamos isso, mas vale repetir: É engraçado quando alguém deixa uma banda e seu trabalho solo reflete exatamente a porção que passou a faltar no antigo grupo. Rostam parece recuperar em “American Stories” uma melancolia que não existe mais no Vampire Weekend desde sua saída após “Modern Vampires of the City”, muito pelo uso das cordas e teclas. É curiosa a relação entre seu terceiro disco solo com o terceiro álbum de sua ex-banda: duas leituras em preto-e-branco sobre as ilusões do sonho norte-americano. A bad do Estados Unidos trumpista está contada aqui.  

“Kylie” acabou de estrear na Netflix. Um documentário em três capítulos para contar a história da australiana deusa pop Kylie Minogue do começo como atriz em seu país lááá da Oceania até o estrelato global na música. Se o mundo já é complicado para mulheres, imagine como foi os anos 1980 e 1990 e as coisas que ela escutou, fora ter lidado com o câncer por duas vezes – inclusive, a mais recente é uma das grandes revelações do filme. Para acompanhar o doc, uma maravilhosa inédita. Esta canção em destaque aqui.

Tão lógico e absurdo quanto um filme de John Carpenter é saber que o cultuado diretor inventou de fazer um disco de metal. “Cathedral” é sua primeira incursão no gênero em um projeto que junta quadrinhos com música. A ideia é uma canção para cada capítulo da HQ, embora as obras também funcionem separadamente, lógico. Mas não se assuste: o velho sintetizador do homem está em ação entre os riffs. 

Por falar em mestre do cinema, o duo Xiu Xiu volta a homenagear o grande David Lynch. Há dez anos lançaram o excelente “Plays the Music of Twin Peaks” e agora fazem um tributo ao filme “Eraserhead” em um disco ao vivo. Entre o material, um cover para “In Heaven”, parceria de Lynch com Peter Ivers. Mas não adianta buscar nada disso no Spotify: o Xiu Xiu está fora da plataforma em oposição aos investimentos de Daniel Ek, fundador da plataforma de streaming, com a indústria militar.  

Se até aqui o Son Lux, trio norte-americano tocado por Ryan Lott, Rafiq Bhatia e Ian Chang, sempre foi mais experimental com um toque dark, parece que em “Out Into” veremos um outro lado deles. Mais grandioso, colorido, mas sem abandonar certa introspecção, lógico. Ryan Lott afirmou que o mote do álbum é trazer à tona ideias respeitando muito seus rascunhos iniciais. Funcionou, nunca soaram tão soltinhos.

Cheia de efeitos quase cômicos de raios e trovões, o Pond solta a super oitentista “Through The Heather”. Natural uma banda psicodélica desaguar no pós-punk dos anos 1980. É como se estivéssemos a história da música pop pelo rádio. Um dia todo mundo apareceu com outros cabelos e outras roupas e tudo mudou.  

O sumidinho do Moses Sumney assina com Kara Jackson a trilha da estreia da diretora Aleshea Harris, “Is God Is”. O plot do filme é daqueles: gêmeas queimadas pelo pai recebem ordens de sua mãe para matar seu pai abusivo responsável por sua desfiguração, dividido entre vingança e perdão. O trailer é bem bom, viu? 

Will Toledo gosta de revistar. Depois de refazer sua estreia em 2018 com uma nova edição de “Twin Fantasy”, ele volta a “Teens of Denial” para celebrar o aniversário de dez anos do álbum e retocar um pouco da história ao revirar algumas letras. É tão sútil que é capaz de só os fanáticos notar as diferenças. Mas ele diz que é outro disco. Ok.

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* Na vinheta do Top 10, as irmãs Ibeyi.
** Este ranking é pensado e editado por Lúcio Ribeiro e Vinícius Felix