Mais atual do que nunca, Madonna continua entregando. “Confessions II” mostra “verdades” ao pop atual

Passados poucos dias do lançamento, “Confessions II” já se tornou assunto obrigatório nas redes sociais. Muito além da música em si, o álbum traz todo aquele circo em torno que só Madonna, por muitos anos, pode armar e transformar em evento. Ame ou odeie, ninguém parece ter permanecido indiferente ou conseguido ignorá-lo.

Também não é por menos. Madonna nunca fez nada pela metade. Depois de meses de teasers, uma parceria com o app Grindr de rede social e relacionamentos LGBTQ+, um show surpresa na Times Square, um curta-metragem provocador dirigido pela dupla TORSO (os mesmos de “SS26”, de Charli XCX) e a promessa de comandar o show do intervalo da final da Copa do Mundo, ela finalmente revelou “Confessions II”, sequência do clássico “Confessions on a Dance Floor” (2005), lançado há 21 anos. E, naturalmente, a expectativa era enorme.

A boa notícia: o disco entrega.

Reunida de novo com Stuart Price, o produtor que ajudou a criar toda a sonoridade do “Confessions” de 2005, Madonna monta um álbum-mixagem, dessas mixagens que não param para respirar entre uma faixa e outra. Boas doses de house, disco, acid house e techno clássicos em 16 faixas, com um pouco mais de uma hora de duração, pensadas para tocar em sequência. Há também bastante vocal falado, um dos recursos que se tornou assinatura da artista ao longo da carreira.

Se há uma faixa que merece atenção especial, essa faixa é “School”.

Tem participação de gente nova e gente grande: Sabrina Carpenter em “Bring Your Love” (o hit óbvio do disco, fora que as duas já cantaram juntas no último Coachella), Feid em “Read My Lips”, Martin Garrix em “Bizarre” e Stromae em “My Sins Are My Savior”. É Madonna como uma boa leonina fazendo o que sempre soube fazer: cercar-se de artistas que definem o momento. Sem jamais deixar que eles roubem a cena dela, lógico.

E, falando em companhia, o elenco escalado para o vídeo de “Danceteria” parece mais a lista de convidados de uma festa impossível: Kate Moss, Benedict Cumberbatch, Odessa A’zion, Gwendoline Christie, Arca, Shygirl, a DJ Honey Dijon e o atacante brasileiro João Pedro (o “sacrificado” pela infleliz convocação do Neymar) aparecem dançando em um banheiro que mistura balada, desfile de moda e after caótico. É um daqueles excessos que só fazem sentido porque são, justamente, da Madonna.

Dizem por aí que este é o melhor disco da Rainha do Pop em décadas. Pode até haver um certo exagero, mas faz tempo que um álbum de Madonna não despertava um consenso tão positivo. Houve momentos brilhantes ao longo dos últimos anos, claro, mas também uma ansiedade perceptível em provar sua relevância dentro de uma indústria obcecada pela juventude e pela próxima novidade. Madonna completa 68 anos no mês que vem.

“Confessions II” parte da direção oposta. O álbum entende uma verdade que o pop costuma ignorar: envelhecer também pode ser revolucionário. Enquanto artistas mais jovens transformam crises existenciais em capítulos de uma adolescência que parece nunca terminar, Madonna, em faixas como “Fragile” e “L.E.S. Girl” (inspirada nos dias em que viveu no Lower East Side, em Nova York), escreve sobre perda, memória, sobrevivência e legado sem transformar nenhuma dessas experiências em melodrama. Há vulnerabilidade, mas nunca autopiedade.

A ironia é que, justamente por deixar de correr atrás das tendências, Madonna soa mais contemporânea do que em muito tempo.

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