CENA – Júlia Guedes estreia em single triplo mostrando que a nova MPB tem mulheres por trás de todas as escolhas

Em tempos de lançamentos calculados para prender a atenção do algoritmo, a mineira Júlia Guedes faz o caminho inverso. Em vez de apresentar uma única faixa, a cantora, compositora e instrumentista chega às plataformas com um single triplo. A escolha funciona quase como uma carta de apresentação: em vez de delimitar quem é, ela prefere mostrar que pode habitar diferentes lugares ao mesmo tempo.

As três músicas — “Contra o Medo”, “Poesia Total” e “Zóim” — apontam para direções distintas, mas compartilham um mesmo fio condutor: uma artista que olha para a tradição da canção mineira sem ficar presa a ela.

“Contra o Medo” talvez seja a porta de entrada mais imediata. É pop, suingada e cheia de balanço, com um perfume setentista que aparece sem soar nostálgico. O piano de Júlia conduz a faixa enquanto a letra transforma a ausência em movimento: “Você partiu e eu não esperava/ Sua ausência me deixa medo”. O clima se estende ao vídeo, que aposta em uma direção de arte vibrante: entre cores saturadas, figurinos criativos e uma festa entre amigos, Júlia canta e dança sem perder de vista a vulnerabilidade da canção. Em vez de dramatizar o medo, o vídeo escolhe celebrá-lo como algo que também pode ser atravessado pelo encontro. 

Se a primeira faixa convida à dança, “Zóim” desacelera. Construída a partir da combinação entre voz e violão, a música se aproxima daquela melancolia delicada que atravessa boa parte da tradição da MPB — das gravações intimistas de João Gilberto às canções mais contemplativas de Caetano Veloso. A participação do mestre Wagner Tiso, responsável pelos arranjos de cordas, amplia esse sentimento sem tirar a simplicidade do centro da composição.

“Poesia Total” muda novamente a paisagem. Se “Contra o Medo” aposta no pop e “Zóim” mergulha na introspecção, a terceira faixa encontra um meio-termo entre as duas. Há novamente um diálogo com a canção brasileira de décadas atrás, mas sem soar presa ao passado. Os arranjos vocais — um dos elementos mais marcantes do single triplo — voltam a ganhar protagonismo e ajudam a construir uma atmosfera calorosa, em que afeto e coletividade parecem caminhar juntos. 

Entre a tradição e o novo

Neta de Beto Guedes, Júlia cresceu cercada pelo imaginário do Clube da Esquina, e essa herança aparece de maneira natural em sua formação. Mas o lançamento deixa claro que sua intenção não é reproduzir uma estética conhecida. O diálogo com a tradição existe, mas convive com elementos do pop, da canção latino-americana e de uma geração de mulheres que ocupam cada vez mais espaço não apenas como intérpretes, mas também como compositoras, instrumentistas, produtoras e diretoras de seus próprios trabalhos.

Mais do que um cartão de visitas, o single triplo funciona como um mapa. Cada faixa revela uma possibilidade diferente para o disco de estreia, previsto para agosto, enquanto apresenta uma artista que parece menos interessada em escolher um único caminho e mais focada em mostrar que todos eles podem coexistir. 

Confira o vídeo de “Contra o Medo”:

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