Toma a crítica, porque agora deu para entender direitinho. “Music, Fashion, Film” faz o rock soar como Charli XCX, não o contrário

Charli XCX sempre foi uma espécie de curadora disfarçada de estrela pop. Trata suas referências com o mesmo cuidado que trata seus próprios hits. Enquanto boa parte do pop recorre ao underground para renovar a própria imagem e vender um “verniz de autenticidade”, ela sempre fez disso um método, trazendo ideias consideradas difíceis para o mainstream, sem diluir completamente suas estranhezas.

Isso fica explícito antes mesmo de você apertar o play em “Music, Fashion, Film”, seu sétimo álbum de estúdio, lançado nesta sexta (24/07) pela Atlantic. A capa, fotografada por Aidan Zamiri, cineasta recorrente em seus últimos audiovisuais, não traz Charli. Traz John Cale, Marc Jacobs e Martin Scorsese numa cozinha, três ícones representando cada um dos aspectos do título do disco.

A primeira impressão é enxergar a capa como um “moodboard” de referências com o título “Olhem para Tudo Aquilo Que Me Fez Chegar Até Aqui”. A segunda é perceber que Charli simplesmente não está lá. É difícil imaginar outra artista de seu tamanho abrindo mão do próprio rosto para colocar um pioneiro do art rock, um estilista e um dos maiores cineastas vivos na mesma fotografia. Não é exatamente uma declaração de humildade, tampouco uma forma de pedir bençãos. Parece a segurança de quem entende que uma assinatura não depende mais de um rosto.

John Cale e a idéia de que pop também pode ser desconfortável

John Cale, não só aquele cara do Velvet Underground, passou a carreira inteira alternando discos de beleza quase clássica com outros que parecem interessados em testar a paciência do ouvinte. Charli sempre gostou desse contraste. Sua música nunca escolheu entre o pop impecável e o ruído; preferiu existir no espaço entre os dois. A parceria de Cale e a artista em “House”, na trilha do filme Wuthering Heights, já apontava para essa afinidade. 

“Music, Fashion, Film” apenas leva a ideia mais longe.

Também ajuda o fato de AG Cook já não ocupar o papel de produtor. Depois de mais de uma década trabalhando ao lado de Charli, os dois funcionam como uma banda de rock: uma parceria longa o suficiente para que autoria vire um conceito compartilhado. “Magical Metal Montana”, faixa dedicada a Cook, soa menos como um tributo e mais como o reconhecimento de que boa parte da identidade artística de Charli nasceu dessa relação.

Talvez por isso o “rock” de “Music, Fashion, Film” nunca tente soar tradicional. As guitarras aparecem em riffs secos e repetitivos, processadas como se fossem mais um sintetizador na sessão. Drum machines, glitches e texturas eletrônicas continuam ocupando espaço, lembrando que este ainda é um disco feito por produtores eletrônicos. É menos uma banda tocando rock do que AG Cook e Finn Keane imaginando como uma banda de rock soaria depois de uma década vivendo dentro do pop.

No mesmo dia em que os Strokes lançam “Reality Awaits”, Charli entrega um disco que entende algo que a banda americana sempre soube: atitude pesa mais do que volume.

 Marc Jacobs e a reinvenção como método

A carreira de Marc Jacobs é feita de apostas que pareciam más ideias até deixarem de ser. A coleção grunge para a Perry Ellis lhe custou o emprego, mas acabou mudando a conversa sobre moda de luxo. Anos depois, na Louis Vuitton, repetiu o movimento ao aproximar a alta-costura da cultura de rua e da arte contemporânea. Charli sempre trabalhou da mesma forma. Foi do hyperpop de nicho ao fenômeno de BRAT sem abandonar as ideias que a tornaram estranha em primeiro lugar. Jacobs não está na capa porque apenas representa moda. Está ali porque entende que uma carreira só continua interessante quando se tem coragem de abandonar a própria fórmula.

Depois do gigantesco “BRAT”, o caminho mais previsível seria aumentar a escala: mais participações, refrões maiores, um disco feito para prolongar o verão infinito que tomou conta da internet. “Music, Fashion, Film” responde com o oposto. São pouco mais de 30 minutos, músicas curtas, arranjos enxutos e uma produção que parece mais interessada em retirar elementos do que em acrescentá-los. É um gesto que conversa diretamente com “The Moment”, seu mockumentary lançado no início do ano, onde Charli já parecia desconfiar da armadilha de tentar superar um fenômeno que, por definição, nunca poderia ser repetido.

Martin Scorsese e a obsessão com quem sobrevive à própria fama

Os filmes de Martin Scorsese raramente tratam apenas da ascensão. O que realmente interessa ao diretor é o momento em que seus personagens percebem que perderam o controle da própria narrativa. A fama, o dinheiro ou o poder nunca são o fim da história, são o começo do problema. Charli parece viver uma inquietação nessa linha em suas letras. A faixa “I’m Afraid” soa exatamente assim: uma música sobre o medo de ser engolida pela personagem que ela mesma criou.

A presença de David Cronenberg na faixa de encerramento amplia essa conversa. Se Scorsese observa a identidade se desfazer pela fama, Cronenberg sempre se interessou por corpos e mentes em transformação. Charli já havia recorrido ao universo do diretor na capa de “Crash”, de 2022, inspirado no filme homônimo sobre desejo, trauma e colisão. Agora a referência deixa de ser simbólica. Em “No One Lasts Forever”, Cronenberg aparece com a própria voz repetindo que “Ninguém dura para sempre”, transformando uma frase simples em algo próximo de um presságio.

Charli XCX e o álbum de rock

O desejo de fazer um disco de guitarras nunca foi exatamente novidade para Charli. “Music, Fashion, Film” soa menos como uma mudança de direção e mais como a conclusão de uma ideia que ela vem perseguindo há mais de uma década.

Em 2014, “Sucker”, seu segundo álbum de estudio, já aproximava Charli do pop-rock, inspirado por bandas como The Hives, Ramones e Weezer. Na época, muita gente tratou o disco como um desvio de rota ou simplesmente o elo mais fraco de sua discografia. 

Poucos anos depois veio a “Nasty Cherry”, banda de rock feminino produzida por Charli. O projeto, que começou como uma série documental da Netflix sobre a criação de uma girl band do zero, parecia apenas mais uma aventura paralela. Em retrospecto, funcionou quase como um laboratório. E não por acaso dali também saiu Gabbriette, hoje uma das maiores it girls da moda e parte do universo criativo que cerca Charli até hoje (Gabriette é citada na letra de 360 e também aparece no vídeo da música).

Hoje dizer que Charli vem entregando mais indie rock que muitos indies de ofício pode dividir opiniões. Aos entusiastas, parece interessante vê-la cantando de uma forma muito mais limpa do que em boa parte de suas eras “mais hyperpop”. O auto-tune continua existindo, mas deixa de ser protagonista. Em várias faixas ela quase fala as letras, lembrando bandas britânicas de pós-punk e indie dos anos 2000 (Alguém aí lembra do clássico “Homecoming” (2007), do Teenagers?).

Se “Rock Music”, “SS26” e “Wink Wink” já havia nos rendido sendo lançadas nos últimos meses, hoje “Card Declined”, “Camera”, “2007”, “Yeah” e “Persona” trazem sentimentos muitos mais conclusivos do que simplesmente sair apontando um álbum do ano. “Music, Fashion, Film” não tenta provar que Charli sabe fazer rock. Apenas mostra que ela finalmente encontrou uma maneira de fazer o rock soar como Charli.

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