
Impossível não ficar com mil ideias na cabeça depois de escutar o segundo álbum da Tangolos Mangos. É tanta coisa dita, tanto som, tantos arranjos malucos. Que diversão e emoção guardadas em um disquinho só. Direto para o topo da nossa listinha, óbvio!

“Pedagios Y Caronas”, segundo álbum da Tangolo Mangos, alcança seu objetivo principal: se aproximar da energia da banda nos palcos, um dilema e tanto para um grupo estradeiro. Não desconfiava? O disco se chama “Pedágio e Caronas”, oras. A ideia é traduzir as aventuras na estrada do quinteto que está por aí desde 2017. E elas surgem em fragmentos em sons e letras: das festas com turmas diferentes na casa de alguém a uma “difícil” noite no sofá de um date passando pela mistura do rock mais básico e barulhento (a duplinha “Gerais do Vieira” / ”Gerais do Rio Preto”) com os olhos de quem sabe muito bem o que anda rolando em termos de forró, pisadinha, brega, pagodão agora – repertório conhecido do baixista João Denovaro, por exemplo, que toca com Rei Lacoste a festa Baile da Sofrência. Coisa de quem viaja, abre a cabeça e descobre um país imenso no caminho – o papel da percussão nesse disco e de instrumentos pouco usuais no rock, tipo sopros de madeira, dão conta dessa abertura. Pelos mil projetos que os garotos tocam todos ao mesmo tempo em paralelo a banda dá para sentir a energia toda. E “Pedagios Y Caronas” ilumina esses mil caminhos possíveis. A agitação dessa mente fica bem contada nesta belíssima “Vou Acordar com Essa Nova Ideia na Cabeça”. Escrita por Vaqueiro de improviso, acaba por ser uma tentativa bem-sucedida de mostrar como funciona sua máquina de ideias, escolhas e incertezas. É um final emocionante para um álbum que prova que a noite de sonhos rendeu.
Em algum intervalo entre os dias mais pops de Rita Lee e a sofisticação para as massas da Marisa Monte, mora o som da Marina Liori. É um lugar inusitado, ela poderia tanto abrir um show do Zé Ibarra quanto tocar sem medo em uma rádio de MPB mais adulta – daquelas que levam dez anos para veicular uma novidade da música brasileira… Dona de um registro vocal suave e bonito e letras escapando de lugares-comuns, a mineira produz sua estreia ao lado de outros mineiros bem conhecidos da gente: Bernardo Bauer (Sítio Rosa, Desastros) e Felipe D’Angelo (Moons), que sabem deixar tudo soar muito verdadeiro – ouvimos até a respiração de Marina. Crueza e pop podem andar juntos.
Bom, podemos sair na mão discutindo a ideia de remexer na obra de Elis e deixar seus discos antigos com gosto diferente do original ou aproveitar o baú aberto pela família. “Corsário”, das mais belas da dupla João Bosco e Aldir Blanc, só foi registrada por Elis em um especial de 1976 para a TV Bandeirantes. Em 1984, após sua morte, o vocal já tinha sido aproveitado para uma releitura tocada por Lincoln Olivetti, que dá uma banho de anos 1980 com direito a sax e tudo mais. A nova releitura aproveita a tecnologia para deixar a voz de Elis mais limpa e mais presente e conta com um arranjo mais tradicional, próximo da versão apresentada por Elis, porém com um acréscimo e tanto: o percussionista Paulinho da Costa, recentemente descoberto pelas novas gerações através do documentário “The Groove Under the Groove: Os Sons de Paulinho da Costa”.
Se a estreia do trio Os Garotin em 2024, após Paula Lavigne sugerir a Anchietx, Leo Guima e Cupertino que formasse ao trio em vez de tentarem três carreiras solo, foi um fenômeno ao recuperar um tempero de soul brasileiro que estava de canto. A sequência do single “Força da Juventude” organiza ainda mais as… forças… ao se aproximar do pop mais radiofônico ao dar um arrojo na produção – o talento para composição já estava todo lá, só um tiquinho em estado bruto. Emplacarem uma com arranjos do mestre Verocai e um time de cordas formado por 12 músicas dá a noção do salto na produção. Hora de realizar os sonhos, fazer sucesso e reinvestir no próprio som. É por aí. Deixa os garotin brincarem.
Piano e voz. Soa conversador, né? Não quando estamos falando de Juçara Marçal e Thais Nicodemo. Ao juntar a amplidão da voz de Juçara (além de dispositivos eletrônicos comandados ela) com a técnica do piano preparado usada por Thais, onde peças (sejam moedas, colheres ou qualquer outra coisa) ligadas às cordas e ao martelo do instrumento geram alterações sonoras, temos um resultado nada conversador. O poder dessa experimentação pode ser mais bem observado nas regravações: “Cavaquinho”, de Rodrigo Campos, por exemplo, disseca as canções de seus fonogramas originais mostrando como ela para em pé com menos. Afinal, menos é mais.
Voz e violão. Outro conceito caído, né? Não quando estamos falando de Giovani Cidreira. Ao lado do boogarin Benke Ferraz, o baiano colocou o formato à prova em esquema ao vivo com um repertório de inéditas e releituras. Registro feito na Casa de Francisca, “Coração Disparado” é um álbum ao vivo com cara de disco de estúdio pelo poder de fogo apresentado – a direção artística é do grande Gorky, o que explica muita coisa. Os dois violões conversam o tempo todo, estabelecendo uma sonoridade para além de versões reduzidas que geralmente são propostas para uma pegada acústica. Para ter uma dimensão mais ampla da proposta, vale ouvir “Demos ao Vivo e Outras Coisas”, disco exclusivo no Bandcamp com as ideias ausentes do material final, incluindo versões para Legião Urbana e Los Hermanos. Hein?
Bruno Berle segue suas investigações sobre a beleza. “Manhã” traduz bons sentimentos em um mix de lo-fi com sofisticação na produção que aos poucos traz novas camadas para um violão e voz inicialmente básico. Aos poucos, como raios de sol, chegam a percussão e o piano. O single fará parte de “Sem Fronteiras”, nome adequado para um trabalho gravado entre viagens por Alagoas, São Paulo, Minas Gerais e suas passagens pela Inglaterra e Alemanha.
Por falar em exclusividade, o Boogarins liberou apenas para os assinantes da sua newsletter (e no Bandcamp) uma coletânea chamada “DIFERENCIADO Vol.1”, composta por seis sons. Coisas gravadas em 2017, 2020, 2023 e duas de 2025, ou seja, duas após o lançamento do mais recente deles, “Bacuri”. A ideia do registro, mais do que liberar novos sons, parece ser estabelecer uma conexão mais direta com os fãs, daí a ideia de optar por deixar de lado as principais plataformas de streaming. O texto na newsletter ressalta que o artista não pode depender das redes sociais tanto para divulgação quanto para a maturação de suas ideias. Um movimento justo de tornar a internet legal de novo.
Seu Jorge é bom em fazer amigos pelo mundo. Convenceu Beck a cantar com ele a belíssima “River Man”, do Nick Drake. Com seu grave em contraste com o canto mais agudo do californiano, a regravação é o ponto alto de “The Other Side”, disco em que Jorge trabalha desde 2009. O álbum está pronto desde 2019, mas só saiu agora. Feito em Los Angeles com Mário Caldato Jr., é um trabalho de intérprete e em um clima bem diferente do balanço apresentado em “Baile à la Baiana”. Além de Nick Drake, o repertório passa por “Crença”, de Milton Nascimento e Márcio Borges, “Caboclo”, de Verocai e Vitor Martins, entre outras. Sua mesmo só tem “Quando Chego”, parceria com Marisa Monte e Arnaldo Antunes, um samba leve que promete tocar muito no rádio.
Os mineirinhos Ogoin e Linguini, presença constante aqui no Top, gostam de desbravar o passado a seu modo. Já fizeram disco dedicado aos antigos seriados de TV americanos exibidos em emissoras abertas por aqui (“TV Show”) e brincaram com o conceito do disco de greatest hits na “Coletânea Good Times”. Em “Sensualiza”, eles vão atrás do funk melody dos anos 1990 e contam com a colaboração de uma testemunha importante da história: Buchecha. Retrô daquele jeito que só é possível em 2026. Uma busca pelos tempos mais simples, sabe?
11 – KUCZYNSKI – “MUSIC 4 A STRIP CLUB” (2)
12 – Zélia Duncan – “Agudo Grave” (2)
13 – Mombojó – “Abaixo a Realidade” (3)
14 – Exclusive Os Cabides – “Bicicleta” (3)
15 – João Carvalho – “Uma Festa no Centro do Vazio (com Clara Bicho) (3)
16 – Renan Benini – “Valsas de um Bolero” (3)
17 – Marcelo Cabral – “Grito” (4)
18 – Anitta – “Bemba (com Luedji Luna)” (4)
19 – Marabu – “Manda Beijo” (4)
20 – Buhr – “Voaria” (4)
21 – Novíssimo Edgar – “Zum Zum Zum” (5)
22 – Silva – “ROLIDEI” (5)
23 – Tuyo – “Solamento” (5)
24 – Febem, Fleezus & CESRV – “M.P.B” (6)
25 – Rael – “Forma Abstrata” (6)
26 – Jovem Dionísio – “Nada Mais” (6)
27 – Vandal – “AH VERDADEH DAH CIDADEH” (6)
28 – Marina Lima – “Um Dia na Vida (com Ana Frango Elétrico)” (7)
28 – Cidadão Instigado – “Medo do Invisível (com Kiko Dinucci e Jadsa” (7)
30 – Schlop – “Clássicos” (7)
31 – MINTTT – “Liberdade Trade Mark” (7)
32 – Ottopapi – “Meus Podres” (8)
33 – Ítallo França – “Tire uma Hora pra Lembrar de Mim” (8)
34 – Tiny Bear – “Mathpop” (8)
35 – Gabriel Leone – “Minhas Lágrimas” (9)
36 – Getúlio Abelha – “Zé Pinguelo” (9)
37 – Chococorn and the Sugarcanes – “Mais Gentil” (9)
38 – Jonnata Doll e os Garotos Solventes & YMA – “Calçadas” (9)
39 – Thalin – “Vagando” com Nina Maia (10)
40 – Dany Roland e Pedro Sá – “Tudo Nada” (10)
41 – Pedro Lanches – “Vergonha” (10)
42 – Antropoceno – “Ayaba Oxum” (11)
43 – VHOOR – “Me Faz um Favor” (11)
44 – Romulo Fróes – “A Vida Que Já Era” (12)
45 – Julieta Social – “Cê La Vie” (12)
46 – Marcelo Callado – “Casca” (12)
47 – Lucas Santtana – “Liga (com Cocanha)” (13)
48 – Liniker – “Charme” (14)
49 – Vitor Araújo e a Metropole Orkest – “Toque N.3” (15)
50 – Isma – “Made In Cohab” com Tasha & Tracie, Carlos do Complexo e CARLO (15)
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* Entre parênteses tem a indicação de quantas semanas a música está neste Top 50.
** Na vinheta do ranking, a banda Tangolo Mangos, em foto de Giovanna Castellari.
*** Este ranking é pensado e editado por Lúcio Ribeiro e Vinícius Felix.